A florada do café de 2026 começou bem, mas o calor de novembro pode pesar justamente no pegamento. Veja o que a pesquisa diz sobre água e abertura floral, como ler a folha antes de decidir e onde a nutrição foliar entra com mais chance de resposta.
Autor: DEUS nutri-machina
Quem trabalha com café conhece a sensação: a lavoura branca de flores, o perfume no ar e, logo depois, a pergunta que não deixa dormir. Quanto disso vai virar fruto? Nesta temporada, a pergunta chegou com um peso extra. A florada aconteceu dentro do esperado na maior parte das regiões, mas o calor de outubro e a previsão para novembro colocaram o pegamento no centro das conversas de produtores e técnicos.
É também nesse momento que as decisões ficam mais tentadoras. Pulverizar algo agora? Reforçar o boro? Esperar? A resposta mais segura não começa no tanque do pulverizador, e sim na leitura de três coisas: a água disponível, o estado nutricional da planta e o calendário da própria florada.
O retrato da safra: florada boa, calor no radar
Segundo acompanhamento do Cepea divulgado em 22 de outubro de 2026, as floradas ocorreram dentro do esperado e o pegamento inicial é considerado bom na maior parte das regiões produtoras [1]. A preocupação está no curto prazo: no Cerrado Mineiro, pancadas de chuva têm se intercalado com dias de sol forte e calor extremo, e na Mogiana o receio é que o calor provoque queda prematura de floradas e de frutos em formação. A avaliação de agrônomos e produtores é que a consolidação do pegamento só poderá ser confirmada por volta de dezembro.
A previsão climática do INMET para novembro reforça o alerta. O instituto indica chuvas abaixo da média em Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, temperaturas até 2 °C acima da média em grande parte do Sudeste e afirma que o café em Minas Gerais e no Espírito Santo poderá sofrer com déficit hídrico e temperaturas elevadas durante a florada e o pegamento dos frutos, condições que podem favorecer a queda de flores e chumbinhos [2]. O risco é maior em lavouras de sequeiro e em áreas com baixa disponibilidade de água no solo. Para São Paulo, ao contrário, a previsão é de chuva acima da média.
Esse retrato muda a ordem das prioridades. Antes de pensar em nutrientes, a pergunta é: a planta tem água para sustentar o que já floresceu?
A água abre a flor; a florada não espera o calendário
Um experimento da Universidade Federal de Viçosa, conduzido no Cerrado de Minas Gerais com as cultivares Catuaí Vermelho IAC 144 e Bourbon Amarelo, comparou lavouras sem irrigação, irrigadas continuamente e com suspensão da irrigação por diferentes períodos no inverno [3]. Cerca de três dias após a retomada da irrigação, uma chuva de 69 mm, a chamada “chuva de florada”, foi o fator determinante para a abertura dos botões. Os níveis moderados de déficit hídrico impostos no inverno tiveram pouco ou nenhum efeito sobre as trocas gasosas, a taxa de florescimento, a uniformidade de maturação e a produtividade, e o percentual de botões florais prontos para abrir (estádio E4) não foi afetado pelos tratamentos.
O que isso sugere para agora? Que a florada responde fortemente ao retorno da água depois do período seco, e que o estado hídrico da planta é um fator central do ciclo reprodutivo. Se a florada já ocorreu, a fase seguinte, de formação dos chumbinhos, depende de a planta conseguir manter água e assimilados chegando aos frutos recém-formados. O limite: o estudo tratou da concentração da florada sob irrigação no Cerrado, numa safra específica (2010), e não mediu pegamento sob ondas de calor como as previstas para este novembro.
Para quem quer antecipar decisões, existe uma ferramenta pública interessante. Pesquisadores da Embrapa, do IAC e do Consórcio Pesquisa Café automatizaram um modelo agrometeorológico baseado no balanço hídrico que estima a data da florada plena do café arábica com cerca de dez dias de antecedência [4]. Esse tipo de leitura ajuda a programar a amostragem e qualquer intervenção para o momento em que a planta realmente está, e não para a data habitual da região.
Antes de pulverizar, a folha conta a história
Na trilha agrícola deste Blog, já falamos de diagnóstico como ponto de partida. Na florada, esse princípio fica ainda mais importante, porque o tempo para agir é curto e o custo de um erro é alto.
A diagnose foliar é o método que usa a folha como “solução extratora” do solo: a folha recém-madura, colhida na época certa, reflete melhor o estado nutricional da planta. A orientação do Departamento de Ciência do Solo da ESALQ/USP para o cafeeiro é coletar na primavera-verão o 3º e o 4º pares de folhas a partir da ponta, em ramos a meia-altura e produtivos, compondo uma amostra de 30 folhas, conforme a tabela de referência do departamento [5]. O mesmo texto lembra que, às vezes, é preciso antecipar a amostragem para ter tempo de corrigir uma deficiência ainda no mesmo ano agrícola.
Outro cuidado é a régua de interpretação. Um trabalho da UFES e da Embrapa estabeleceu faixas de suficiência e normas DRIS para café conilon em pré-florada no sul da Bahia, a partir de lavouras com produtividade igual ou superior a 100 sacas por hectare, e concluiu que as normas devem ser específicas para a época de amostragem e para a região [6]. Para o arábica de Minas ou da Mogiana, isso significa interpretar o laudo com referências adequadas à cultura, à fase e ao local, com apoio técnico.
Boro, pegamento e o perigo do “quanto mais, melhor”
Quando se fala de pegamento, o boro aparece logo na conversa, e com razão. O boro é essencial para a fertilização porque participa da germinação do grão de pólen e do crescimento do tubo polínico, etapas que precisam dar certo para a flor virar fruto. Uma revisão apresentada em estudo com abacateiro, publicado na revista Agronomy, resume esse papel e mostra que a concentração de boro no pistilo pode acelerar a germinação do pólen e o crescimento do tubo polínico [7].
O mesmo estudo traz um alerta que vale para qualquer cultura de florada intensa. Pesquisadores da Griffith University aplicaram 0 g, 15 g (dose recomendada pelo fabricante) ou 30 g de boro por árvore antes da florada. A dose recomendada aumentou a massa dos frutos em 5%. Já a dose dobrada reduziu o pegamento, medido dez semanas após a florada plena, em 56%, e a produção final em 25% [7].
Aqui é preciso ser claro sobre o limite: trata-se de abacateiro, na Austrália, não de cafeeiro. O estudo não deve ser usado para definir doses no café. O que ele ensina é um princípio fisiológico: o boro tem uma faixa estreita entre o suficiente e o excessivo, e a resposta depende do estado da planta. Por isso, no café, a decisão sobre boro na florada deve partir da análise foliar e do solo, do histórico da área e da recomendação técnica regional, e não de um reforço “por garantia”.
Onde a nutrição foliar tem mais chance de responder
A nutrição foliar é uma ferramenta valiosa no café, especialmente para micronutrientes exigidos em pequenas quantidades e em fases curtas e decisivas, como a florada e a formação dos chumbinhos. A publicação da Embrapa sobre fatos e mitos da adubação foliar lembra que a técnica não substitui a adubação do solo, porque as quantidades totais exigidas pela produção são muito maiores do que as que podem ser absorvidas pelas folhas [8]. Bem posicionada, porém, ela permite ajustar com precisão e rapidez o que o diagnóstico apontou.
Na prática, isso leva a um roteiro de decisão para as próximas semanas:
1. Água primeiro. Em lavouras irrigadas, acompanhe a umidade do solo e ajuste a lâmina, como recomenda o INMET. Em sequeiro, priorize o monitoramento: queda de flores e chumbinhos sob calor e solo seco não se resolve com nutrientes.
2. Amostre no ponto certo. Use o 3º e o 4º pares de folhas de ramos produtivos a meia-altura, em talhões homogêneos, e registre a fase da florada no momento da coleta.
3. Interprete com a régua adequada. Compare os resultados com faixas de referência válidas para arábica, para a fase e para a região, e cruze com a análise de solo.
4. Pulverize apenas o que foi indicado. Se houver deficiência ou faixa baixa, a correção foliar pode ser feita conforme a recomendação técnica e o rótulo do produto, nos horários mais frescos, evitando calor intenso e vento.
5. Acompanhe o pegamento até dezembro. Marque ramos de referência e conte flores, chumbinhos e quedas. É essa observação que vai mostrar, na próxima safra, se a estratégia funcionou.
Um erro comum nesta fase é tratar toda queda de chumbinho como falta de nutriente. Com calor acima da média e chuvas irregulares, parte das perdas tem origem hídrica e térmica. Uma pulverização feita sem diagnóstico, em pleno calor, pode não trazer resposta e ainda aumentar o risco de fitotoxidez.

O que isso ensina para o cultivo em casa
Quem cultiva frutíferas em vaso pode levar daqui um princípio, não uma receita. A florada é uma fase em que a planta depende muito de água estável e de nutrientes em equilíbrio: tanto a falta quanto o excesso de um elemento como o boro podem atrapalhar a formação dos frutos. Em casa, isso significa manter a rega regular na florada, evitar exageros de adubo “para segurar as flores” e observar a planta antes de aplicar qualquer reforço. As doses e o manejo de lavoura não se transportam para o vaso.
Uma florada é uma promessa; o pegamento é a resposta
Ver a lavoura florir é sempre um começo cheio de esperança. Mas, como lembra o Cepea, o potencial da próxima safra só se confirma com o comportamento do clima entre novembro e dezembro. Nesse intervalo, as melhores decisões são as que respeitam a sequência da planta: água para sustentar, diagnóstico para entender e nutrição, inclusive pela folha, para ajustar com precisão.
Ciência e campo se encontram exatamente aqui, no cuidado de quem conta chumbinhos num ramo marcado e decide com base no que viu. É esse olhar que transforma uma florada bonita numa colheita plena.
DEUS nutri-machina — Nutrindo o Extraordinário.
Referências
[1] ITATIAIA. Florada do café começa bem, mas calor e El Niño acendem alerta para a safra, aponta Cepea, 22 out. 2026. Rádio Itatiaia.
[2] INSTITUTO NACIONAL DE METEOROLOGIA (INMET). Novembro: como será o clima no Brasil?, 28 out. 2026. INMET.
[3] RONCHI, C. P.; ARAÚJO, F. C.; ALMEIDA, W. L.; SILVA, M. A. A.; MAGALHÃES, C. E. O.; OLIVEIRA, L. B.; DRUMOND, L. C. D. Respostas ecofisiológicas de cafeeiros submetidos ao deficit hídrico para concentração da florada no Cerrado de Minas Gerais. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v. 50, n. 1, p. 24–32, 2015. DOI: 10.1590/S0100-204X2015000100003. PAB/Embrapa.
[4] SILVA, J. P.; ROMANI, L. A. S.; SANTANA, J. P.; VASCONCELLOS, E. B. C.; PRELA-PANTANO, A.; CAMARGO, M. B. P.; MEIRELES, E. J. L. Sistema automático para estimativa da florada do cafeeiro. In: IX Simpósio de Pesquisa dos Cafés do Brasil, Curitiba, 2015. Embrapa Alice.
[5] ESALQ/USP – DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA DO SOLO. Instruções para coleta e remessa de amostras: diagnose foliar. ESALQ/USP.
[6] PARTELLI, F. L.; OLIVEIRA, M. G.; COVRE, A. M.; DIAS, J. R. M.; ESPINDULA, M. C. Normas foliares para café conilon em pré-florada no sul da Bahia. In: VIII Simpósio de Pesquisa dos Cafés do Brasil, Salvador, 2013. Embrapa Alice.
[7] HAPUARACHCHI, N. S.; KÄMPER, W.; WALLACE, H. M.; HOSSEINI BAI, S.; OGBOURNE, S. M.; NICHOLS, J.; TRUEMAN, S. J. Boron effects on fruit set, yield, quality and paternity of Hass avocado. Agronomy, v. 12, n. 6, 1479, 2022. DOI: 10.3390/agronomy12061479. Griffith Research Online.
[8] NACHTIGALL, G. R.; NAVA, G. Adubação foliar: fatos e mitos. Embrapa, 2010. Portal Embrapa.



